A quem essa foto agrada?
Fabiano Mendonça
Professor da UFRN
Estamos em campanha aberta. Só não
vale ainda dizer que quer voto. Mas quer; e voto é gente. E o objetivo é
conseguir juntar, não afastar. Só que essa foto de um senador brasileiro de pé atrás do presidente dos Estados Unidos afasta... É um registro ao lado
de alguém acusado de pedofilia, de cometer crimes de guerra, ordenar o
assassinato de milhares de pessoas, provocar a morte de outras tantas e até de
ameaçar civilizações. Na vida pessoal, deselegante e rude até com reis e
presidentes aliados.
Quem exporia uma foto ao seu lado num momento desses? É
fácil perceber que seria enviada no grupo da família e daqueles que
compartilham a mesma ideia. Então, foi feita apenas para essas pessoas. Para
acalmar. Mas num círculo vicioso: "estão me acusando, mas, vejam, ele está
comigo". E: "acusam ele de traição, mas vejam, eu estou com
ele"! Certo, não é crime sentir falta de um afago, mas aqui está-se
falando de uma carência coletiva socialmente complexa.
O grupo da famiglia e o retratado em pé sentem falta desse
carinho, desse abraço do homem alaranjado que não olha para eles na foto. O
grupo cativo não quer só o aceno da famiglia, quer vê-la junto de quem
idolatram. E eles aprenderam a idolatrar o que é de fora. Por isso a foto se
torna tão importante nessa narrativa. Mesmo que ela não tenha um abraço que
sare essa ferida. O único que não pede abraço na foto, é o presidente dos
Estados Unidos. Ele está livre desse círculo de justificativas.
Chama-se "petição de princípio" o conjunto de
argumentos no qual a afirmação só faz sentido se eu já estiver disposto a
acreditar na conclusão. Então, o pré-candidato que condecorou milicianos só é
inocente das acusações se eu já concordar que ele tem o apoio do presidente dos
Estados Unidos. Uma coisa não tem a ver com a outra, mas isso é o que está por
trás do discurso fotográfico. Vira um raciocínio circular onde não há novas
informações.
O estarem dois acusados de crimes unidos não é motivo para
se entender que são inocentes. Seria mais fácil pressupor que planejam algo
juntos. E isso é público. Seja para impedir o comércio bilateral, querer
determinar decisões de julgamentos, coagir agentes públicos, acolher
criminosos, assumir o controle de atividades de segurança pública interna,
negociar patrimônio mineral estratégico ou ceder empresas energéticas, todos
são atos notórios de violação de normas internacionais contra o Brasil.
Seria birra? Um encéfalo tratado a detergente que manda uma
foto para pessoas fanatizadas a ponto de sinalizarem para seres do espaço,
orarem diante de um pneu, pedirem intervenção militar, chorar em muros de
quarteis e invadirem os prédios dos três poderes federais, poderia agir assim.
Pois, menos de um mês antes, seu antagonista partidário foi recebido pelo mesmo
Presidente com honras e pompas, tapete vermelho e jantar. E, o pior, foto
sorridente.
Na foto do Presidente do Brasil, há um encontro de Estado.
Num momento crítico de sua popularidade, essa foto isenta trouxe-lhe pontos
positivos. Agradou seus apoiadores, atraiu indecisos e deixou os críticos
calados e pensativos, na medida do possível. São dois presidentes, com
posicionamentos ideológicos e políticos diversos, mas que souberam sentar e
dialogar. Pois o país subsiste a suas opiniões pessoais. Isso é maturidade e
responsabilidade, mesmo para o par americano do norte. Elogiável.
Na ausência de uma estratégia mais elaborada, o candidato
familiar tentou mimetizar. E fazer meme. Não há como saber se ficou intimamente
chateado ou frustrado com a foto do outro. No máximo, pode-se dizer que é
provável que não tenha ficado feliz, mesmo sendo brasileiro. E talvez nem
queira ser; seus atos não são de amor ao país e seu povo. Quais os pontos
positivos? Agradou seus apoiadores? Sim. Sobretudo porque mantém a fidelidade
diante do risco de buscarem outras alternativas políticas.
Atraiu indecisos? Dificilmente, pois a radicalização tende a
afastá-los e também não demonstra capacidade emocional. Quanto a seus críticos,
nem ficaram calados nem pensativos, pois tiveram o que falar sem precisar ter
que analisar demais. Numa, temos duas pessoas apertando mãos: significa um de
cada lado, não estão submetidos à mesma direção; eles têm um ponto de encontro.
Noutra, há pessoas em postura vassala. Fotos sempre foram poderosas ferramentas
de afirmação política. Quem saiu bem?

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